top of page

Ser trans é escolha? O que a ciência realmente consegue dizer hoje

  • Foto do escritor: Paula Lavigne
    Paula Lavigne
  • há 7 dias
  • 9 min de leitura

Nos últimos tempos, eu, Paula Lavigne, tenho sentido cada vez mais necessidade de estudar alguns temas da minha própria vida com mais profundidade, mais responsabilidade e mais honestidade intelectual. Não apenas porque eles atravessam a minha história, mas também porque atravessam debates públicos que, muitas vezes, são conduzidos com excesso de ruído e pouca escuta.


Como mulher trans, eu sei que muitas das perguntas que a sociedade faz sobre identidade, corpo, disforia, desenvolvimento e transição não ficam apenas no campo abstrato. Elas chegam na vida real. Elas atravessam o modo como a gente se percebe, o modo como é vista e até o modo como aprende a se compreender. E talvez por isso eu tenha sentido vontade de fazer este post a partir de um lugar um pouco diferente: não só da vivência, mas também do estudo.


A proposta aqui é justamente essa. Reunir, de forma acessível, parte das referências científicas que estou estudando neste momento, para tentar entender melhor o que a ciência realmente consegue dizer, e também o que ela ainda não consegue dizer, sobre pessoas trans, identidade de gênero e, em menor medida, orientação sexual.


Ao longo do texto, você vai ver números entre colchetes, como 1, 2 ou 4. Esse é um formato bastante comum em textos acadêmicos, artigos científicos e revisões de literatura, porque ajuda a mostrar com clareza de onde veio cada afirmação. Em um post de blog, isso não é obrigatório. Mas, neste caso, eu quis manter esse cuidado justamente para que qualquer pessoa possa conferir a fonte original, aprofundar a leitura e entender que esta não é uma opinião solta: é uma conversa baseada em literatura científica séria.



Talvez essa seja uma daquelas perguntas que muita gente faz em silêncio. Às vezes por curiosidade sincera. Às vezes por confusão. Às vezes porque nunca teve acesso a uma explicação clara, sem grito, sem julgamento e sem caricatura.


Quando o assunto é identidade de gênero, especialmente pessoas trans, é muito comum que o debate saia do lugar da escuta e vá direto para opiniões prontas. Só que existe um ponto importante aqui: a ciência já estudou, e continua estudando, esse tema com bastante seriedade 1 2 4.


O que ela diz hoje não é tão simples quanto alguns discursos gostariam. Não é correto tratar isso como mera escolha, como se alguém decidisse sua identidade do nada, de forma arbitrária. E também não é honesto fingir que a ciência já fechou uma resposta total, única e definitiva 1 3 4. O que existe é algo mais profundo, e talvez mais humano: um processo complexo de desenvolvimento.


Antes de tudo, o que estamos chamando de identidade de gênero


Antes de responder se isso é “escolha” ou não, vale organizar os conceitos, porque muita confusão pública nasce justamente daí. Identidade de gênero não é a mesma coisa que orientação sexual. Uma coisa diz respeito à forma profunda como a pessoa se reconhece em relação ao gênero; a outra diz respeito à atração afetiva e sexual 1 2 8.


Também é importante separar sexo designado ao nascer, identidade de gênero, expressão de gênero e disforia de gênero. Esses termos se relacionam, mas não significam exatamente a mesma coisa. Quando tudo isso vira um bolo só, o debate perde precisão, e quem está tentando entender o próprio caminho acaba ficando ainda mais sozinha.


Sexo designado ao nascer é a classificação inicial feita com base, principalmente, na anatomia observada no nascimento. Identidade de gênero é a forma profunda como a pessoa se reconhece em relação ao gênero. Pessoa trans é quem não se identifica com o sexo que lhe foi atribuído ao nascer. Disforia de gênero é o sofrimento que pode existir quando há incongruência entre identidade vivida e características corporais ou sociais. Já orientação sexual diz respeito à atração afetiva e sexual, e não à identidade de gênero.


Quando eu falo sobre esse tema por aqui, meu cuidado sempre é o mesmo: não transformar a experiência humana em slogan, mas também não deixar que ela seja reduzida a achismo. Há vivências que precisam ser acolhidas, mas também há perguntas legítimas que merecem resposta séria. E é exatamente aí que a ciência pode ajudar.


Quando a pergunta é: isso é escolha?


Essa talvez seja a parte mais delicada de todas, porque a forma como a pergunta costuma ser feita já traz uma simplificação embutida. Em ciência, muitos traços humanos importantes não são nem uma decisão arbitrária nem o produto de uma causa única. Eles surgem de uma interação entre desenvolvimento, biologia, ambiente e experiência vivida 1 2 8.


Por isso, a literatura científica mais séria não sustenta a ideia de escolha voluntária simples quando falamos de identidade de gênero 1 2 5. O que ela sugere é outra coisa: que a identidade de gênero parece emergir de um processo complexo de desenvolvimento humano, no qual fatores biológicos, psicológicos e sociais interagem ao longo da vida 1 2 4.

O que a ciência consegue dizer hoje é que identidade de gênero não se parece com uma escolha simples e voluntária. Ela se parece muito mais com um processo complexo de desenvolvimento humano 1 2 4.

Isso não significa que a ciência tenha explicado tudo. Não significa que exista um teste de laboratório capaz de provar quem alguém é. Não significa que a experiência subjetiva deixou de importar. Significa apenas que a hipótese de mera escolha, do jeito como ela costuma aparecer em discussões rasas, é fraca diante do que os estudos vêm mostrando 1 3 4.


O que os estudos mais sérios mostram até aqui


Quando a gente olha para a literatura mais levada a sério, o melhor caminho não é procurar uma frase mágica, mas observar as linhas de evidência. Nenhum estudo isolado resolve tudo. O que importa é o conjunto.


As pesquisas sobre hormônios e desenvolvimento pré-natal sugerem que fatores hormonais no desenvolvimento precoce podem influenciar trajetórias ligadas à identidade de gênero, embora isso seja difícil de medir diretamente em humanos 1 2. A linha genética aponta para predisposição biológica multifatorial, mas não para um gene único que explique tudo 2 6. Estudos de gêmeos indicam participação de herança e ambiente, ainda com bastante variação entre os trabalhos 6. Já a neuroimagem mostra um quadro heterogêneo: alguns achados em pessoas trans se aproximam mais do gênero vivido do que do sexo atribuído ao nascer, mas não existe marcador único e definitivo 4. Na abordagem clínica e psicológica, a literatura mostra que identidade de gênero não pode ser reduzida a patologia e que sofrimento e estigma influenciam muito a experiência 8.


Uma das revisões mais citadas nessa área é a de Roselli, que discute a neurobiologia da identidade de gênero e da orientação sexual. O ponto central não é afirmar um determinismo rígido, mas mostrar que hormônios, genes e desenvolvimento cerebral precoce parecem participar dessa formação de maneira relevante 1.


Na mesma direção, Boucher e Chinnah reforçam a ideia de uma base multifatorial, relacionando genética, desenvolvimento cerebral e disforia de gênero 2. É o tipo de estudo importante justamente porque não tenta vender uma resposta milagrosa: ele sugere contribuição biológica, mas reconhece que a história é mais complexa do que qualquer explicação única.


Já a revisão sistemática de Frigerio e colegas, focada em neuroimagem, é muito útil para colocar os pés no chão. Ela mostra que alguns achados cerebrais em pessoas trans se aproximam mais do gênero vivido, enquanto outros se aproximam mais do sexo designado ao nascer 4. Em outras palavras, o quadro não é limpo, binário nem simples. É misto. E isso precisa ser dito com honestidade.


O que a ciência ainda não provou


Eu acho que essa parte é essencial, porque um texto sério não serve para substituir um exagero por outro. Se por um lado a hipótese de mera escolha é fraca, por outro também não existe base científica para dizer que já foi encontrado um gene trans, um exame definitivo ou um marcador cerebral universal que feche a questão 3 4 6.


A literatura crítica mais recente insiste justamente nisso: a busca por uma explicação total, limpa e definitiva pode empobrecer o próprio fenômeno humano que se está tentando entender 3. E eu concordo que esse cuidado importa muito. Nem tudo o que é profundamente real cabe em um único marcador biológico.

A ciência não precisa ter explicado tudo para já indicar que a hipótese de mera escolha é fraca. Muitas vezes, o que ela oferece primeiro não é uma resposta total, mas um desenho mais honesto da complexidade humana 3 4.

Dizer que ainda existem limites metodológicos não enfraquece o tema. Pelo contrário. Mostra maturidade intelectual. Mostra que estamos falando de algo suficientemente importante para ser estudado com rigor, sem simplificação ideológica de nenhum lado.


E a orientação sexual, entra onde nessa conversa?


Entra, sim, mas sem misturar as coisas. Identidade de gênero e orientação sexual são temas diferentes, embora ambos sejam estudados por campos próximos e muitas vezes sofram os mesmos erros no debate público 1 5 8.


Quando a pergunta se volta para pessoas gays e bissexuais, a literatura científica mais séria também não sustenta a ideia de uma escolha simples e voluntária. Revisões influentes e estudos genéticos grandes apontam para um quadro multifatorial, com contribuição biológica relevante, mas sem gene único e sem explicação simplista 5 7 9.


O grande estudo genômico publicado na revista Science, com centenas de milhares de participantes, foi importante exatamente por isso: ele enfraqueceu tanto a tese do voluntarismo simplista quanto a fantasia de um único gene gay. O que aparece ali é uma arquitetura complexa, poligênica e longe de qualquer caricatura 9.


Então, quando alguém tenta resumir toda essa discussão com frases como “é só escolha” ou “a ciência já provou tudo”, o problema é o mesmo: em ambos os casos, a complexidade do humano desaparece.


Que áreas da ciência estudam isso, e por quê


Essa é outra dúvida muito legítima. Muita gente pergunta: afinal, qual ciência estuda isso? E a resposta mais correta é que não existe uma única ciência responsável por esse tema, porque o fenômeno também não pertence a uma única dimensão da vida humana 8.


Neurociência estuda como o cérebro se desenvolve e como isso pode se relacionar com identidade, percepção corporal e diferenças sexuais 1 4. Neuroendocrinologia investiga o papel dos hormônios no desenvolvimento sexual e cerebral 1 2 7. Genética comportamental observa herdabilidade, predisposição e interação com ambiente 6 9. Psicologia olha para desenvolvimento da identidade, experiência subjetiva, sofrimento, bem-estar e adaptação 8.


Psiquiatria e medicina estudam disforia de gênero, cuidado clínico, classificação diagnóstica e saúde mental 2 8. Sexologia e ciências sociais entram porque linguagem, cultura, normas de gênero, sexualidade e efeitos do estigma também fazem parte da equação 5 8.


Em outras palavras, esse é um daqueles temas em que corpo, mente e vida social não podem ser separados de maneira artificial.


Se você quiser aprofundar esse tema comigo


Se esse tema mexe com você, ou se você quer entender isso de um jeito mais humano e vivido, eu também já falei sobre partes dessa jornada no meu canal.


A leitura ajuda a organizar as ideias. Mas o vídeo, muitas vezes, ajuda a sentir o que as palavras técnicas não alcançam sozinhas.



No fim, talvez a pergunta mais importante seja outra


No fim, talvez a pergunta mais importante não seja se a ciência já resolveu tudo. Talvez seja se a gente está disposto a olhar para o ser humano com mais honestidade.


O que os estudos mais sérios mostram hoje é que identidades trans e orientações sexuais não cabem bem em explicações rasas. Não fazem sentido como capricho, moda ou decisão simples. E também não precisam ser encaixadas em frases absolutas para serem levadas a sério 1 2 4 5.


A hipótese mais compatível com o que a literatura científica tem encontrado é a de um desenvolvimento multifatorial, com participação biológica real, experiência subjetiva real e contexto social real. E, quando um tema é humano assim, talvez a melhor postura seja menos ruído e mais escuta.


Referências comentadas


  • Roselli (2018) é uma revisão muito citada sobre neurobiologia da identidade de gênero e da orientação sexual 1.

  • Boucher e Chinnah (2020) revisam genética, desenvolvimento cerebral e disforia de gênero 2.

  • Arraiza Zabalegui (2024) é uma revisão crítica importante para evitar simplificações como a ideia de cérebro trans definitivo 3.

  • Frigerio e colegas (2021) oferecem uma revisão sistemática de neuroimagem útil para entender o que existe de evidência e quais são os limites 4.

  • Bailey et al. (2016) estão entre as sínteses mais importantes sobre orientação sexual e controvérsia científica 5.

  • Conabere et al. (2025) revisam estudos de gêmeos sobre diversidade de gênero, herdabilidade e ambiente 6.

  • Wang, Wu e Sun (2019) discutem a base biológica da orientação sexual 7.

  • Moleiro e Pinto (2015) ajudam a organizar conceitos, controvérsias e aspectos clínicos 8.

  • E Ganna et al. (2019) mostram, em grande escala, a complexidade genética da sexualidade humana 9.


Comentários


© Todos os direitos de imagem preservados

Paula Lavigne Silva 2025

Criação e Design:

Deborah Pausini | Studio Debbi de Criação

bottom of page