Transformando o inimigo em amigo
- Deborah Pausini
- 19 de fev.
- 2 min de leitura
Durante muitos anos, em especial na fase de conhecimento, adolescência, amadurecimento, o espelho foi meu inimigo. Eu me produzia, escolhia a roupa com cuidado, caprichava nos acessórios, e quando finalmente criava coragem para me olhar de verdade, vinha aquele silêncio desconfortável. Não era o espelho que me julgava. Era eu.

Eu não via apenas minha imagem. Eu via tudo o que achava que faltava. Ombros largos demais. Traços duros demais. Altura demais. Sempre havia um “demais” ou um “de menos”. E junto com isso vinha aquela pergunta: será que um dia eu vou conseguir me enxergar como eu me sinto por dentro?
No começo da jornada crossdresser, o espelho costuma ser um campo de batalha. A gente se produz carregando expectativas por vezes exageradas. Queremos que ele devolva aquilo que idealizamos. Queremos validação. Queremos confirmação de que estamos “boas o suficiente”. E quando essa imagem não corresponde à fantasia que criamos, a frustração dói. Dói de verdade.
Eu demorei para entender que o problema nunca foi o espelho. O problema era como eu me via. Um olhar treinado durante anos para comparar, medir, avaliar, criticar. Um olhar que aprendeu padrões de feminilidade e que tentava me encaixar neles a qualquer custo. Cabelos, corpo, seios, bumbum, eu queria ser e ter o impossível.
A virada não aconteceu de um dia para o outro. Não foi mágica. Foi sutil. Eu comecei a me perguntar menos “estou passável?” e mais “estou feliz?”. Comecei a prestar atenção no brilho dos meus olhos, na leveza do meu sorriso, na sensação gostosa de sentir uma saia tocar minhas pernas. Percebi que havia dias em que eu estava tecnicamente menos produzida, mas emocionalmente muito mais inteira. Por vezes me senti linda, sem sequer olhar para o espelho.
E foi então que a percepção começou a mudar. O espelho deixou de ser o juiz e passou a ser um testemunho. Testemunha da minha coragem, de minhas tentativas, dos meus esforços.
Eu ainda tenho dias difíceis. Ainda existem momentos em que a insegurança aparece. Mas hoje, quando me olho, eu não procuro mais uma mulher perfeita. Eu procuro coerência entre o que sinto e o que vejo. E quando encontro isso, mesmo que imperfeito, há uma paz imensa. Me sinto feliz.

O espelho virou aliado no dia em que eu parei de tentar provar algo para ele e comecei simplesmente a me reconhecer. Ele nunca foi o inimigo. O inimigo era a expectativa de caber em um molde que não foi feito para mim.
Talvez o real amadurecimento na jornada feminina não seja alcançar uma imagem ideal, mas aprender a sustentar o próprio reflexo com dignidade.
Quando isso acontece, o espelho deixa de ser confronto e passa a ser um prazeroso encontro.

Sobre a autora
Deborah Pausini, conhecida como Debbi, é transgenerista, escritora e criadora de conteúdo. Atua há mais de três décadas no universo cross, sendo fundadora do Brazilian Crossdresser Club e autora dos livros Caminhos de Expressão e Meus Primeiros Passos. Compartilha vivências reais para inspirar autenticidade, autoestima e liberdade de expressão. Instagram: @deborah_pausini




Ótimo texto e lindas fotos 😊👍💖