Um passo de cada vez... e o mundo muda
- Paula Lavigne

- 18 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Escrevo hoje como quem compartilha uma página íntima do próprio diário. Não exatamente um relato cronológico, mas uma reflexão. Uma tentativa de organizar pensamentos e sentimentos que vêm se acumulando nos últimos dias... dias intensos, transformadores e profundamente emocionais.
Quase um ano se passou desde que contei para Becca sobre mim, sobre quem eu sou de verdade. De lá pra cá, tenho caminhado num processo interno de revelação, compartilhando essa parte da minha vida com algumas poucas pessoas, amigos escolhidos com carinho e confiança. Só que, dessa vez, não foi um movimento meu.

No último fim de semana, foi Becca quem decidiu dar um passo. Pela primeira vez, ela contou para a irmã sobre tudo. Sobre mim. Sobre nós.
Essa irmã que, além de ser parte do sangue da minha esposa, é também, pra mim, uma irmã de alma. Uma presença constante na minha vida, uma amizade que atravessou o tempo e os silêncios. Foi uma conversa difícil, claro. Um choque. Mas ao mesmo tempo, libertador.
Libertador porque tiramos um peso do peito, porque quebramos mais um muro. Libertador porque agora Becca não precisa mais carregar isso sozinha. Ela tem uma aliada próxima.
Alguém com quem pode falar, dividir, se apoiar. E pra mim, significa mais uma pessoa diante da qual eu posso existir sem máscaras.
É uma sensação difícil de descrever. É como abrir uma janela num quarto fechado há anos.
O ar novo entra, mas junto dele vem poeira acumulada, memórias antigas, dores que a gente tentou guardar embaixo do tapete.
Não posso falar pela Becca. Nem pela irmã dela. Muito menos por você, que me lê agora. Cada pessoa tem seu próprio caminho, suas feridas, suas formas de sentir. Só posso falar por mim. E o que eu tenho sentido é uma mistura de alegria e tristeza, de alívio e medo.
É como se, por um lado, eu me libertasse. Mas, por outro, sentisse vontade de voltar pra dentro da minha própria prisão. A minha jaula confortável, onde aprendi a sobreviver por tanto tempo. Onde me escondi porque era mais seguro assim.
Tenho carregado culpa, vergonha, arrependimento. Me pego pensando se não deveria ter contado tudo isso antes. Se talvez eu não tivesse sido tão covarde... Ou se apenas faltaram palavras, coragem, espaço.
A verdade é que cresci num mundo muito diferente deste em que vivemos hoje. Um mundo onde ser quem eu sou era visto como algo errado. Onde a internet não oferecia acolhimento, e as redes sociais nem existiam.
Durante muitos anos, me vi como uma aberração. Dói escrever essa palavra, mas ela ecoa em tantas histórias como a minha. Me senti errada. Deslocada. Uma presença que não devia estar aqui. Hoje, tenho orgulho de mim, de tudo que conquistei, do que tenho construído. Mas esse orgulho caminha lado a lado com um sentimento profundo de culpa.
Culpa por talvez ter desestruturado sonhos, planos, expectativas. Culpa por ter demorado tanto. Culpa por ter machucado as pessoas que mais amo. Às vezes, brinco, meio em tom de desabafo, meio em tom de tristeza, que é como se eu tivesse uma doença terminal. Como se uma parte de mim tivesse morrido e outra estivesse tentando nascer.
Talvez seja por isso que tantas pessoas descrevem a transição como uma morte e um renascimento. Porque é isso. Morrer praquilo que o mundo esperava que você fosse e renascer no que você é de verdade. Só que renascer dói. Dói muito.
Vem acompanhado de medo, de raiva, de julgamentos, internos e externos. E nem sempre a gente sabe como lidar.
Eu fiz escolhas. Algumas erradas. Outras, certas. E estou tentando me redimir. Em primeiro lugar comigo mesma. Depois, com a minha esposa. Se vou conseguir, eu não sei. Mas estou tentando, todos os dias.
A irmã da Becca tem sido compreensiva dentro do que é possível. Mas eu sei que ela também está sofrendo. Ela mesma me disse que é a primeira coisa que pensa ao acordar e a última antes de dormir. Sei que ela sofre por ver a irmã nesse turbilhão, e também por tudo que envolve a mim.
Ela tem assistido meus vídeos no YouTube. Maratonado. Chorando com muitos deles. E, sim, também está brava comigo. Chateada por eu ter escondido tudo isso por tanto tempo. Mais chateada ainda por que sabe que pensei besteira muitas vezes.
Se eu pudesse deixar uma frase direta pra ela, aqui, seria: "Eu sinto muito. Eu errei. Mas estou dando tudo de mim pra fazer certo agora."
Não soube lidar. Fiz o que pude. Do jeito que achei que seria menos doloroso. Hoje, olhando pra trás, vejo o quanto me equivoquei. E tudo que eu mais queria era amenizar esse sofrimento... o meu, o da Becca, o de todos que eu amo.
Talvez esse texto soe pesado. E ele é. Mas dentro dele também mora superação. Porque, apesar da dor, ele é sobre movimento. Sobre evolução. Sobre coragem.
Toda mudança verdadeira vem com perdas. Às vezes, perdemos a imagem que tínhamos de nós mesmos. Outras vezes, perdemos pessoas. Outras, apenas ilusões. Mas, no fundo, o que fica é quem somos. Eu quero acreditar que eu continuo sendo eu.
Antes de qualquer coisa, existe aqui um ser humano. Que tem os mesmos gostos, os mesmos sonhos, as mesmas músicas favoritas. Só não se vê do jeito que o mundo gostaria que ele se visse.
Amo vocês, Becca, irmã da Becca e marido (concunhado).
Obrigada por me acolherem, por tentarem, por estarem aqui.
É difícil. Muito. Mas eu sigo. Um dia após o outro.
Com amor,
Paula Lavigne Silva https://www.paulalavigne.com.br








Não se culpe, erros foram cometidos, mas isso faz parte de aprendermos com eles... Agora são mais pessoas que sabem de você e, com o tempo, saberão como ajudar vc e sua esposa... Todas passamos por problemas, mas aos poucos vamos superando... E você não está só nisso tudo, Paulinha... Só você nunca vai ficar... Você não é um monstro, você é uma humana com sentimentos humanos que está tentando se corrigir e está conseguindo... Tenha orgulho de estar nessa batalha, porque você vai vencer ela.
Você sempre terá meu apoio, mana... E terá também de outras pessoas que te amam ☺️😉💕💕💕