O Corpo, a Ciência e a Polêmica: Por que a exclusão de mulheres trans no esporte é mais política do que biológica
- Paula Lavigne

- 30 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Olá a todos que acompanham o blog. Hoje a conversa é séria, necessária e, acima de tudo, humana.
Sempre que abrimos um jornal ou rolamos o feed das redes sociais, parece haver uma nova "crise" envolvendo mulheres trans no esporte. É um tópico que gera gritos, leis proibitivas e muita desinformação. Mas, curiosamente, poucas vezes paramos para analisar o que realmente acontece biologicamente com o corpo de uma mulher trans durante a transição e como essa "vantagem" que tanto alardeiam é, na verdade, um mito que esconde preconceito.
Hoje, quero convidar você — seja homem, mulher, cis, trans, hétero ou LGBT — a olhar para os fatos científicos e sociais. Vamos desconstruir a ideia de que somos "super-humanas" imbatíveis e entender o preço físico que pagamos para sermos quem somos.

A Realidade Biológica: O mito da vantagem eterna
A grande polêmica gira em torno da ideia de que mulheres trans, por terem passado por uma puberdade masculina, teriam uma vantagem física eterna e injusta sobre mulheres cisgênero. Mas a ciência, quando não é politizada, nos mostra um cenário bem diferente.
Quando iniciamos a Terapia Hormonal de Afirmação de Gênero, não estamos apenas "tomando pílulas". Estamos reescrevendo a química do nosso corpo.
O "Motor" Enfraquece (Hemoglobina): Estudos demonstram que, em cerca de 3 a 4 meses de bloqueio de testosterona e introdução de estrogênio, os níveis de hemoglobina no sangue caem drasticamente, alinhando-se aos de mulheres cis. A hemoglobina é quem transporta o oxigênio para os músculos. Menos oxigênio significa menos resistência, menos fôlego e uma recuperação mais lenta.
Atrofia Muscular: A testosterona é um anabolizante natural. Quando a retiramos, o corpo entra em um estado catabólico. Após cerca de 12 a 24 meses de tratamento (o período geralmente exigido por comitês olímpicos), há uma perda significativa de massa magra e força explosiva.
Ou seja, aquela "vantagem" inicial é sistematicamente desmantelada pelo tratamento.
A Desvantagem Invisível: Quando o corpo cobra o preço
Aqui entra um ponto que quase ninguém discute: muitas vezes, a mulher trans hormonizada não está em pé de igualdade com a mulher cis; ela pode estar em desvantagem fisiológica.
Uma mulher cisgênero saudável tem uma produção hormonal endógena (natural) perfeitamente regulada pelo seu organismo. O corpo dela sabe exatamente o que fazer. Já o corpo de uma mulher trans depende de hormônios exógenos (externos). Isso gera oscilações e efeitos colaterais que atletas cis não enfrentam.
Saúde Óssea e Osteoporose: A supressão hormonal a longo prazo, se não for perfeitamente monitorada, pode levar à perda de densidade óssea. O risco de osteoporose precoce é real. Uma atleta com ossos mais frágeis não tem vantagem; ela tem um risco maior de lesão.
O "Chassi" sem o "Motor": É verdade que a estrutura óssea (altura, largura de ombros) não diminui com hormônios. Mas imagine um carro com a carcaça pesada de um caminhão (estrutura óssea maior), mas com o motor de um carro popular (musculatura reduzida pelo estrogênio). Isso não é eficiência biomecânica; é um peso extra para carregar com menos força disponível.
A Biologia Cisgênero também não é uma "Linha Reta"
Outro erro comum é tratar as mulheres cisgênero como se fossem todas iguais, biologicamente frágeis e idênticas. Isso não é verdade e subestima a potência feminina.
Existem mulheres cis com níveis naturais de testosterona muito acima da média (como vimos em polêmicas recentes nas Olimpíadas). Existem mulheres cis com 1,90m de altura que, naturalmente, terão uma vantagem no vôlei sobre uma mulher cis de 1,60m. Você pode ter certeza de que existem mulheres cis que sacam e cortam com muito mais força do que a grande maioria dos homens destreinados.
O esporte de alto nível já é um ambiente de seleção de corpos excepcionais. Michael Phelps tem uma envergadura e uma produção de ácido lático que são anomalias biológicas. Usain Bolt tem uma fibra muscular diferenciada. Nós celebramos essas vantagens genéticas em homens e mulheres cis, mas escolhemos punir uma mulher trans que, após o tratamento, muitas vezes luta apenas para manter um condicionamento básico.
A Pauta Política e o Perigo da Generalização
Se a ciência mostra que, após cerca de 2 anos de hormônios, os níveis de performance se equalizam (ou até pioram para a mulher trans), por que tanta gritaria?
A resposta é dura: política. O corpo da mulher trans virou um campo de batalha ideológico.
Criar pânico moral sobre "homens invadindo esportes femininos" é uma tática para engajar eleitores e aumentar o preconceito.
Isso é perigoso para todas as mulheres. Essa obsessão em vigiar quem é "mulher de verdade" já está afetando mulheres cisgênero que fogem dos estereótipos de feminilidade.
Mulheres com traços mais fortes, cabelos curtos ou musculosas estão sendo questionadas, humilhadas e submetidas a "transvestigação". A intolerância contra nós acaba respingando e violentando qualquer mulher que não se encaixe no padrão de "princesa" que o patriarcado exige.
O Caminho: Inclusão com Critério e Empatia
Não estamos pedindo o fim das categorias. Estamos pedindo o fim da hipocrisia.
Cada esporte é um universo.
No Xadrez ou no E-sports, por exemplo, não faz o menor sentido haver segregação baseada em força física ou hormônios.
No Vôlei, Tênis ou Atletismo, estudos caso a caso, medição de testosterona e tempo de transição são ferramentas justas que já existem.
Em esportes de combate, como o Boxe, o peso e a massa muscular são critérios rigorosos que já protegem as competidoras.
A exclusão total é preguiçosa e cruel. O esporte é uma ferramenta de salvação, de saúde mental e de socialização. Dizer que uma mulher trans não pode praticar esporte com outras mulheres é dizer que ela não pertence à sociedade.
Precisamos lutar pela informação correta. Precisamos ter empatia pelo próximo. A violência começa nas palavras, nas leis excludentes e termina nas ruas. Que possamos usar o esporte para unir, e não para segregar.
O Absurdo da "Trapaça de Gênero": Vamos usar a lógica?
Agora, vamos jogar limpo e ser 100% sinceros aqui. Pensa comigo: uma pessoa que tem índole para trapacear, que busca aquela "vantagem competitiva" suja a qualquer custo, ela vai fazer isso independentemente do gênero.
É para isso que existem os exames rigorosos de antidoping. O esporte mundial gasta milhões monitorando atletas que usam substâncias proibidas (e até as permitidas em excesso) para ganhar força ou resistência. As federações já sabem como caçar quem quer burlar o sistema. Garanto para você: a fila do doping tradicional por substâncias ilegais é quilométrica, enquanto a de pessoas trans no esporte é mínima.
Agora, pare e reflita sobre a narrativa que tentam vender: Alguém mudaria de gênero apenas para ter vantagem no esporte?
Isso não soa too much (demais) e totalmente ilógico? Mudar de gênero, transicionar, é um processo complexo, doloroso e desafiador. Envolve mexer com sua saúde mental, enfrentar o preconceito da família e da sociedade, tomar hormônios que alteram seu humor e seu corpo. Basicamente, um homem cisgênero, "macho hétero top", teria que renunciar a todo o seu privilégio social, se tornar parte de uma minoria estatisticamente violentada e marginalizada, e enfrentar uma montanha de desafios... só para ganhar uma medalha de natação ou vôlei?
E o pior (ou melhor) de tudo: como vimos nos dados científicos acima, ao fazer isso, ele perderia justamente a vantagem física que queria manter! Ao iniciar a hormonização, a força vai embora, a explosão muscular cai e a recuperação piora. Ou seja, seria a estratégia de trapaça mais burra e ineficaz da história.
"Ah, Paula, mas e se acontecer? E se for um caso isolado?" ... Não podemos transformar a exceção em regra. Não podemos legislar e excluir uma população inteira baseada num medo infundado ou num caso raríssimo que, se existisse, seria facilmente barrado pelos exames de níveis hormonais que já são exigidos.
A realidade é simples: ninguém escolhe ser trans para ganhar jogo. A gente é trans porque é quem somos. E só queremos o direito de viver, suar a camisa e competir como qualquer outra mulher.
Sejamos críticos com o que a mídia vende e mais acolhedores com a realidade humana.
Com carinho e força,
Paula Lavigne Silva








Acredito que a criação de categorias esportivas de mulheres e/ou homens trans resolve essa polêmica.
Muita informação boa que eu mesma desconhecia... Ótimas explicações... Texto bem explicado e claro.
Muito bom ☺️ ❤️